Primeiro Suspiro Depois do Coma

Tema: Primeiro Suspiro Depois do Coma (First Breath After Coma)

Temista: Fernanda

O silêncio absoluto agonizava-me ainda mais. Tudo era negro e, ao mesmo tempo que infinito, parecia me sufocar. Cada vez mais e mais, e mais, e mais. A escuridão me engolia com uma força brutal que por mais que eu desse o máximo de mim mesma, sentia-me regredindo a cada fração de segundo. Como se me afogasse no mar, lutava obstinadamente e quanto mais me movimentava para sair, mais ar eu perdia, sentia uma pressão intensa contra meu corpo e um calor anormal. Empurrei o que me pressionava com uma força que parecia estar reservada dentro de mim para uma situação excepcional e fatalmente necessária, senti uma dor ímpar, era simplesmente a pior dor que havia sentido na minha vida inteira, se é que isso fazia realmente parte da minha vida. Sabia que se eu desistisse seria o fim, no entanto, sabia que não faltava muito para que eu, de fato, desistisse.

Inevitavelmente esse momento chegou, então senti meu corpo cair. Caía em um buraco profundo, infinito. Ainda que tudo ao meu redor fosse negro, permaneci com os olhos fechados, percebia a contração do meu corpo conforme o ar que restava o deixava. Continuava a desabar por aquele nada sem fim, até que caí em uma piscina gigante. Senti um alívio imediato com o frescor da água gelada, nadei até a superfície e enchi meus pulmões de ar desesperada e profundamente. Abri os olhos e um branco intenso e até doloroso tomou conta da escuridão que há tanto tempo era tudo que eu podia ver. Aos poucos o branco se desvanecia, pude perceber uma imagem que se focava lentamente e um som tênue e contínuo. Virei para onde vinha o som e vi um cardiógrafo. Divisei-me em uma cama, homem segurava minha mão, ele olhou para mim e com os olhos em lágrimas e sorriu.

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Consciência

Tema: Consciência

Temista: Jorie

Vi o ônibus se distanciando lentamente e uma poeira, logo em seguida, tomando o seu lugar. Fiquei sentado na sarjeta da rodoviária, inexpressivo, por horas que pareceram um simples instante. Estava sujo e cansado, mas, por mim, ali ficaria até que me tirassem e eu sabia que não iria demorar muito.

Existem pessoas que, apesar de ter certo descontentamento com sua situação atual, sempre souberam que um dia, de uma maneira natural e inesperada, alguma coisa aconteceria tornando tudo o que hoje é presente em uma passagem efêmera de suas vidas, um passado caído em esquecimento, e desse acontecimento em diante suas vidas o presenteariam com o que sempre buscaram. Eu sou uma delas, ou pelo menos era o que pensava.  Sou de uma cidade tão pequena que não vale mencionar o nome, até porque eu não me considero daqui, simplesmente tive a infelicidade de ter sido parido neste fim de mundo. Durante minha vida inteira fui a pessoa mais responsável e correta que alguém possa imaginar, sempre pensei duas vezes antes de tomar qualquer atitude. Ainda assim, mesmo nos momentos mais duros da vida, nunca parei de sonhar.

Eu tinha grandes planos, contando que um dia tudo ia mudar e assim que isso me acontecesse iria pode realizar esses planos. Sabia que agora eles eram impossíveis, por conta da minha desgraçada vida que não os permitia acontecer. E assim fui levando a vida. Infeliz com o que vivia, mas sonhando com o que iria ser a partir do momento em que eu conseguisse escapar da minha rotina, sair daquela cidade infeliz, sair daquela pobreza miserável e dar à minha mulher e meus filhos, minha única fonte de felicidade real, , tudo o que sempre sonhei ter para mim.

Com o tempo, minha frustração pessoal começou a tomar conta de mim de tal forma que eu não tinha vontade nem de estar com a minha família, ia trabalhar, voltava, chegava em casa, bebia e esquecia do que acontecia no resto do mundo, mergulhando nos meus sonhos e tristezas. Eu, então, me fechei num mundo só meu e quando saí desse mundo, percebi que tudo o que sempre quis, não era nada do que eu não já tivesse. Infelizmente, isso só aconteceu hoje, há cerca de 5 horas, quando cheguei em casa e encontrei vazia com um bilhete sobre a mesa da cozinha. Eu corri. Quando cheguei o ônibus já se distanciava e com ele, a minha vida que, cego e iludido, sempre desprezei.

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Tema: O planeta não passa de um grande The Sims em que Deus e o Diabo estão jogando em rede

Temista: Filippo

É muito reconfortante pensar que no final de tudo haverá algo celestial e recompensador por tudo o que foi passado na Terra, ou até mesmo pelo que foi feito durante a vida. Faz bem pensar que as pessoas que, de alguma forma, o ofenderam (direta ou indiretamente) irão arder no fogo do inferno. A vida por esse ponto de vista pode mesmo ter um sentido plausível para tudo o que se passa por aqui: se eu fizer o certo e for religiosa irei para o céu, caso contrário, irei para o inferno. Só que nem tudo acontece da forma que planejamos…

Você nunca soube de uma pessoa maravilhosa, super religiosa e que sempre estava tentando agradar e ajudar aos outros, mas que sempre se ferrava? Seja em um filme, livro, conhecido, amigo, parente ou você mesmo. Isso faz algum sentido? Pensar que a pessoa sofreu a vida inteira e mesmo assim dava o máximo de si para ajudar os outros? Pode ser que para emagrecer isso faça algum sentido, mas na vida essa história de no pain no gain não existe, não.  É muita ingenuidade pensar que as coisas são meras coincidências. Deus e o Diabo que adoram interferir na vida dos terráqueos, e você fica com uma cara de taxo pensando que é muito azarado para conseguir tanta cagada em um dia só. Você nunca pensou como a vida fora da vida pode ser um pé no saco? Pois ela é. E para animar um pouco o lado de lá, Deus e o Diabo, resolveram criar o planeta Terra, um jogo em tempo real, mistura de reality show com vídeo game. O céu e o inferno ficam conectados 24h por dia, desde então.

Portanto, a próxima vez que você se deparar com uma situação inacreditavelmente improvável, certamente foi o resultado de uma seqüência de cliques frenéticos de um dos dois geeks lá do outro lado da vida e não o resultado de demasiada sorte ou azar. Essa história aí, aliás, de sorte e azar, é fruto da equipe de programadores ultra high quality da dupla, que se desdobra em mil para conseguir detalhar ao máximo o jogo para quem joga, e para que os serem da Terra não desconfiem de nada, nunca.

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O mundo sem mulheres

Tema: Como seria o mundo sem mulheres ?

Temista: Marisa

Houve um tempo  em que mulheres eram seres inimagináveis na terra. Onde nela habitavam somente machos e nada mais. Vocês devem estar se perguntando como acontecia a procriação dos seres, ela não acontecia. Os que ali estavam não morriam, e os que nasciam, nasciam de um milagre divino vindos dos deuses que testavam novas espécies de seres. Os deuses tinham um imenso orgulho em serem os que davam a vida, e, portanto, as figuras mais amadas e veneradas na terra. A vida sem a presença feminina era digamos que normal, já que os que ali estavam nunca haviam conhecido a vida com ela. Mas para nós, que a conhecemos, é possível listar algumas diferenças notáveis.

O mundo sem mulheres era um tanto quanto monótono. Monótono porque o homem era acomodado, a vida do jeito que estava era o suficiente. Ele não precisava se destacar entre os outros, porque não havia platéia, a disputa não existia e ambição era modesta. Sem mulheres os relacionamentos eram poligâmicos, não havia amor, nem entre dois homens, o único amor possível era pelos deuses. Assim sendo, a vida era calma  e igual. Dia após dia, ano após ano. Nada mudava, porque sempre o que era, era como deveria ser. Não precisavam mudar, mudar dava muito trabalho.

Com o tempo, os homens acumularam uma preguiça imensa de fazer o mínimo necessário para viver. Viver era bom porque não precisava de muito esforço, mas também enchia o saco, pelo mesmo motivo. Os homens passaram a dormir mais, e economizar o máximo de tempo para qualquer outra atividade. O que, então, era por eles percebido desnecessário, automaticamente saia de seu conjunto de atividades diárias. Isso não acontecia através de um acordo comum, eleição ou qualquer decisão democrática e pública. Acontecia naturalmente, sem que eles percebessem que estavam fazendo menos, gradativamente até que o último homem vivo eliminava uma atividade que todos os outros já o haviam feito.

Passado-se algum período, os deuses perceberam que não ouviam mais os rituais de veneração a eles, nem agradecimentos ou orações. Os homens estavam horríveis, com a barba até a cintura, assim como os cabelos, imundos e fedidos, e passavam o dia dormindo, acordando somente para as necessidades fisiológicas. Horrorizados com o que viam, decidiram por abandonar esse deplorável mundo de machos. Felizmente, o grupo de deuses era formado por homens e mulheres, mulheres, que apesar de deusas, eram mulheres, curiosas, fofoqueiras e coração mole como todas as outras. Não demorou muito até que a primeira deusa voltasse a bisbilhotar o que estava acontecendo com seus homens, ficou com um aperto no coração e plantou flores para animá-los, os primeiros seres vivos completos com suas estruturas masculinas e femininas, já que antes não haviam plantas na terra. Os homens nunca tinham antes visto algo tão bonito e cheiroso como uma flor. Ficaram bestas, babando imóveis em frente das flores por 3 dias seguidos, até que a segunda deusa os vira e se emocionou com a cena. Ela viu a as flores se reproduzirem e se orgulhou de como o mundo ficara perfeito para que a vida evoluísse, assim colocou pássaros fêmeas e contou para as outras deusas. A notícia se espalhou com rapidez entre as deusas que cada vez que passavam pela terra, adicionavam uma fêmea de cada espécie. Com tanta novidade os homens voltaram a se interessar pela terra e ter vontade de viver, os agradecimentos, orações e rituais de veneração foram as primeiras atividades a serem retomadas. Os deuses, então,voltaram a ouvir os homens e, portanto, resolveram ver o que acontecia na terra. Perceberam então que a presença feminina os faziam ter amor não só por elas, mas pela vida, e pelos deuses que permitiam a sua felicidade. Os deuses orgulhosos do resultado convidaram as deusas e juntos criaram o último par que faltava na terra, a mulher.

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O infeliz cotidiano

Tema: O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções (Clarice Lispector)

Temista: Evelyn

Se eu dissesse que nunca pensei que um dia estaria nesta situação, não falaria a verdade, até porque há algum tempo pela minha cabeça isso permanece. Hoje acordei, mais cedo do que deveria para recuperar as energias gastas no dia anterior, durante a manhã, trabalhei contando os segundos para chegar a hora do almoço e à tarde, trabalhei contando os segundos para chegar a hora de ir embora. Logo que cheguei em casa fui fazer a janta, não pude sentar-me no sofá  ou ao menos tomar um banho, se Antônio chegasse antes da janta estar pronta, terminaria o dia numa discussão interminável e patética como outras foram. Terminei o jantar, fui tomar meu banho enquanto Antônio chegava e se servia na cozinha. Assim que saí do banho, não houve conversa, não houve carícias nem afeto algum. Ele foi assistir à TV, eu jantei sozinha, lavei a louça e fui lavar roupa enquanto ele para cama se dirigiu. Estendi as roupas no varal, já passava das onze, fechei as portas e janelas e me deitei. Ontem, fiz o mesmo e assim foi por muito tempo e seria se nada eu fizesse.

Eu não tenho filhos, não os pude ter. Lamentei por muito tempo essa fatalidade, mas agora vejo como melhor foi dessa forma. A não ser Antônio, não há nada nessa vida que me prenda. Eu sempre fui uma sonhadora, tinha grandes planos, tantos que acabei por nenhum seguir, logo que começava a me dedicar a um, um novo surgia ocupando seu lugar. No meio de tantos planos e esperanças, Antônio aconteceu e de todos, ele foi o único que me prendeu a ponto de realmente levar a sério. Eu fiquei cega, me deixei levar, nada na vida havia conseguido me deixar levar. Grande erro meu. Por ele, tornei minha vida em uma igual a de todos os outros, uma igual às quais eu tinha asco e horror. É por isso enfatizo que o que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções, eu vivia só exceções, eu fui só exceções. Hoje não me reconheço e assim sendo, não posso assumir autoria da sucessão dessa carta, porque não eu mais sou e não eu mais serei, se assim continuar.

Sim, há algum tempo pela minha cabeça isso permanece. Não pensei que assim seria, sempre tive certeza de tudo que se relacionasse a minha vida e minhas decisões, sabia cada passo do meu futuro até me entregar a essa vida ordinária. Portanto foi estranho pensar tanto numa decisão como esta que agora não tem como ser desfeita. Hoje me entrego e comemoro a volta do que nunca devia ter acabado e torço para que outros como eu não deixem que os planos se concluam, porque quando tudo estiver feito e pronto, o sentido de viver não mais existirá.

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Sim, clichê!

Tema: Clichê

Temista: Marjorie

Muitas pessoas dizem que na vida nada se cria tudo se copia. Quantas vezes estamos assistindo a um filme e já sabemos o desfecho sem nunca tê-lo assistido antes? Ou ouvimos uma música pela primeira vez e adivinhamos o próximo verso? Algumas desculpas são tão calejadas que sentimos até pena de ouvir alguém ter a coragem de usá-la. Clichê! Por que clichê? O clichê muitas vezes aparece por espontaneidade, é tão batido que se torna automático. Outras, aparece por ser seguro, se já deu certo tantas outras vezes, por que não daria agora?

Bom, devemos admitir que o clichê, uma vez na vida foi algo que teve seu destaque, porque se não fosse, não teria virado algo tão copiado descaradamente por tantos. Portanto, hoje quero dedicar esse post a todos os precursores de clichês e seus fiéis seguidores que não só admiraram as idéias como não as deixaram morrer.

Viva a garota que levanta inconscientemente sua perna enquanto beija o mocinho da história. Viva a safada da esposa que tem a façanha de continuar com a desculpa da dor de cabeça e seu filho que diz a professora que seu cachorro comeu a lição de casa. Viva a música “Canção da América” nas formaturas e viva a foto de turista segurando a Torre Eiffel na palma da mão. Viva o seu chefe com o velho discurso “se você se dedicar podemos ver pensar naquela promoção” e viva o vendedor da fera que não se cansa da frase “moça bonita não paga, mas também não leva”.

Acho que mais que um viva, essas pessoas deveriam ganhar um ip-ip-urra com todo o ar que temos nos pulmões, vamos lá: IP – IP – URRAAAAAAAAAAAAA! Clichê é para poucos, é para os que têm coragem e cara-de-pau. Portanto, nada mais justo que um viva final para o próprio, viva o clichê.

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Algo que se foi e ainda é

Tema: Ontem e Hoje

Temista: Vanderly

Ontem

Definitivamente, a memória não é uma qualidade que se destaca em mim, mesmo. Na época que estudava inglês, por exemplo, toda vez que consultava o dicionário para saber o significado de uma palavra desconhecida, na hora que voltava para o texto e re-lia a palavra já não lembrava seu significado. Portanto, não sei exatamente se a minha memória, em relação às coisas das mais longínquas às mais recentes, funciona como a de todos. Para mim parece que tudo o que passou não faz mais de um ano. A partir do momento em que não é possível mensurar a distância do que passou, de forma mentalmente tangível inventei essa expressão, deve existir uma outra que eu desconheço (2 dias atrás foi antes de ontem, quinta: fui na fisioterapia, trabalhei, voltei pra casa; 654645 dias atrás: ????; o dia em que meu primeiro dente caiu: ?????) para mim é passado. É como se tudo o que passou virasse um vídeo, então quando você lembra (assiste) algum momento da vida, esse momento não vem datado. Por mais que eu tenha presenciado coisas ruins na vida ou mesmo saber que houve coisas ruins em dias que já se foram, o meu ontem é sempre bom. De modo geral eu gosto do que passou, eu gosto até de coisas do que passou cuja as quais eu não estive presente se é que isso faz algum sentido.  

Hoje

                Hoje, para mim, é o passado e futuro mentalmente tangível (futuro mentalmente tangível: daqui a uns 20 minutos estarei postando esse texto no meu blog, amanhã ouvirei algo relacionado a algum assunto que ouvi durante essa semana). Há os que digam que hoje/agora não existe, porque se está prestes a acontecer é futuro e se já foi é passado, mas é esquisito existir uma palavra para algo que não exista, portanto eu interpreto o hoje/agora da forma que acabei de compartilhar com vocês na primeira frase deste parágrafo. Gente, esse negócio de tempo é difícil de falar. O problema é que hoje não é algo que se define tão facilmente como ontem, porque hoje pode ser bom ou ruim, acho que estou tão acostumada com ele que acaba sendo indiferente. Hoje é uma continuação constante.

Ontem e hoje

                Hoje interfere diretamente no ontem, mesmo que hoje já seja ontem quando chegou a interferir nele. Mas ontem é o que fica na lembrança de todos e por conta dele o hoje é tudo o mundo, a vida da forma que conhecemos (seja isso algo bom ou ruim), você tem acesso a quase tudo que já é ontem, portanto se há tanta coisa boa que foi feita, acho que não tem tanto mistério nessa equação. Felizmente o futuro não faz parte do tema, portanto, pelo menos até esse post ele continuará sendo um mistério.

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Enquanto você dormia

Tema: Enquanto você dormia

Temista: Luana

Hoje eu fui demitido. Eu sei, isso é péssimo porque terei que correr atrás de alguma outra coisa e porque terei que pedir dinheiro para o meu irmão mais novo. Mas para falar a verdade, eu já estou acostumado com isso, portanto o motivo que me entristece é, definitivamente, outro.

Eu trabalhava como o porteiro noturno de um prédio comercial, entrava à meia-noite e saia às 8h da manhã. Para mim era ótimo já que tenho uma dificuldade imensa em acordar de manhã cedo, além do que, eu conseguia aproveitar bem o dia para resolver todos os assuntos externos ao trabalho sem ter que faltar nele. Os afazeres eram simples e tediosos, mas suficientes para mim. Muitas vezes eu me sentia transparente naquele lugar, as pessoas que freqüentavam o prédio não me notavam, assim como eu não fazia o mínimo esforço de notá-las também. Um dia, após terminar meu turno, me direcionava a porta para ir embora quando avistei uma delicada mulher de cabelos cacheados e presos com uma fita vermelha, eu nunca havia reparado nela (mas não duvidava de tê-la visto antes), ela tinha uma aparência inocente e calma, e era graciosamente desastrada. Ela entrou, cumprimentou o porteiro do turno da manhã (muito simpaticamente) e se dirigiu ao elevador. Pronto, estava feito.

A partir desse dia passava o dia em claro, pois costumava dormir de dia, ansioso para minha jornada de trabalho ver a garota da fita vermelha. Sabia que a hora que eu estava entrando no prédio ela já devia estar deitada, dormindo. Enquanto ela dormia, eu só pensava nela e na hora nos veríamos, isto é, que eu a veria. Demorou muito tempo para descobrir seu nome, até que um dia, quando estava saindo do prédio, um homem de terno e gravata gritou “Gabriela, me espera!”, um pouco à sua frente estava ela, olhando para trás e acenando para ele. Eu passava as noites falando com os seguranças sobre a Gabriela, eu tentava descobrir o máximo dela que podia. Enquanto ela sonhava, eu contava os segundos, que pareciam horas, das noites esperando o nascer do sol e a melhor hora do meu dia. Fiz muitas horas extras, esperando ela chegar nos dias em que se atrasava, e acho que essa é uma razão para demorarem tanto para me demitir dessa vez.

Assim como de certa forma me ajudou a permanecer mais tempo nesse emprego, também foi o motivo da minha demissão. Meus colegas de trabalho me apoiavam e espalharam para os outros funcionários do prédio sobre o meu amor platônico, eles então me ajudavam a obter mais informações da Gabriela e tentavam criar situações em que eu pudesse interagir com ela de alguma maneira. O máximo que consegui foi pegar o elevador com ela, mas nunca trocamos uma palavra sequer. Até que a história foi se espalhando e chegou aos ouvidos do meu chefe, que me chamou para uma conversa e me despediu com um pé na bunda. Amanhã de manhã não a verei, mas hoje à noite enquanto ela dormir, também estarei de olhos fechados, sonhando com ela.

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Churrasco ou Cabelo? Eis a questão!

Tema: uso de secador de cabelo para acender a churrasqueira

Temista: Fábio

A descoberta do fogo possibilitou ao homem o seu desenvolvimento e garantiu sua existência. A partir da observação, ele aprendeu a produzi-lo, pois antes o homem dependia do acaso para consegui-lo (como com um raio sobre uma árvore). Os anos se passaram e os avanços tecnológicos também, ainda falando de fogo, podemos com apenas um movimento obtê-lo com um palito de fósforo (que não é o melhor exemplo de tecnologia avançada). Acontece que por mais descobertas que fazemos, por mais sabedoria que adquirimos, nunca é o suficiente, sempre há um pequeno detalhe que é deixado de lado e é aí que as coisas acontecem.

Hoje não precisamos de uma fogueira para nos manter aquecidos em casa, muito menos de uma para poder fazer uma refeição, podemos cozinhar com o microondas se quisermos. Agora, chega o domingo, depois de uma semana fatigante, com um belo céu azul, acompanhado de um sol maravilhoso.., resultado: churrasco na laje. Acontece que, apesar de toda a sabedoria e tecnologia, acender a churrasqueira é sempre um perrengue. Ensopa o pão velho no álcool, coloca uma camada de jornal antes do carvão, usa acendedores dos mais variados, faz promessa pra São não sei das quantas, é uma tristeza.  Até que um belo dia alguém muito esperto percebeu que a maneira mais fácil de acender a churrasqueira era usando o secador de cabelo. A técnica de usar secador de cabelos foi se espalhando rapidamente a nível mundial, entre todos os fãs de do velho e bom churrasco. As pessoas ficavam alegres e invés de sortear quem ia ser o bobo da vez que iria acender o fogo disputavam para segurar o secador e posar de salvador do dia, ninguém mais chorava, ninguém mais sofria, eram verdadeiros dias de glória.

Dias depois que os homens usavam os secadores com tal finalidade adaptada, os secadores voltavam para suas respectivas donas e às suas funções iniciais, no entanto seu cheiro de churrasco denunciavam o uso feito pelos maridos, irmãos, pais, primos, tios, etc. homens. Distraídos como sempre, os homens não percebiam quão irritadas as mulheres ficavam quando não estavam com seus cabelos perfeitamente do jeito desejado, e ficar com eles cheirando a picanha estava bem longe disso. As mulheres do mundo todo começaram a acumular um ódio tão grande que, de nervoso, resultou numa pandemia de queda de cabelos em mulheres. Tinha mulher careca para tudo quanto era canto no mundo, as que não ainda não estavam com raiva dos homens que pegavam seus secadores, passavam a ter queda de cabelo por tão nervosas que ficavam de medo de ter queda de cabelo.

Hoje as mulheres ainda estão carecas, pois elas não são tão atraentes como um saboroso churrasco de domingo, regado a uma cervejinha gelada e acompanhado de um futebol à tarde. O único lugar no mundo que ainda se ouve notícias de mulheres com cabelo é na Índia, onde o consumo de vaca é proibido, é incrível acreditar que o país se tornou o mais rico do mundo por conta do mercado de perucas, mas como disse, não duvide do que uma mulher pode fazer para ter seu cabelo perfeitamente do jeito desejado.

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Um dia Quente

Tema: Pés descalços

Temista: Ana

Era um desses dias que o calor é tão intenso que mesmo vestindo somente um shorts jeans e uma camiseta bem fininha de algodão, parecia estar vestindo um longo e pesado casaco de pele. Sua vista não alcançava o fim da estrada alaranjada, mas ao tentar encontrar seu fim, via a paisagem estremecida como se houvesse uma fogueira no chão. Ela andava há horas e não sabia quanto tempo ainda teria que andar, sua boca estava seca e sua roupa encharcada de suor. Ela já não conseguia mais manter o ritmo acelerado que tinha no início da jornada, seus passos eram lentos e arrastados. Num momento de distração, ela pensou avistado um pequeno lago. Ansiosamente caminhou em direção ao que via e chegou ao laguinho.

Ela, então,  retirou delicadamente os chinelos imundos de terra, já que a longa caminhada havia os presenteado com algumas bolhas, sentou na borda do lago, e lentamente mergulhou seus pés descalços na água. Enquanto seus pés sujos imergiam na água, a terra que desgrudava deles se espalhava, formando uma mancha alaranjada ao seu redor. O lago estava gelado e por mais calor que fizesse, ainda assim sua pele se arrepiou. Ela balançava as pernas e agitava a água,  formando desenhos com os rastros que seguiam o movimento de suas pernas.

Agora as pernas haviam se acostumado com a temperatura da água, que estava refrescante e convidativa. A garota entrou no lago de corpo inteiro, e sentiu a lama no fundo passar entre os dedos dos seus pés descalços. A lama era macia e aveludada, era uma sensação esquisita e relaxante. Começou a caminhar e tatear o que havia no fundo do lago turvo. Ficou ali por volta de três quartos de hora, sozinha, em paz absoluta, relaxando depois de tanto tempo sob o sol. Percebeu, então que o céu ficara alaranjado como a estrada que seguia, o sol estava se pondo. Saiu do lago aos pingos, calçou seu chinelo e voltou a sua jornada, sem saber quando parar e aonde iria chegar.

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