O infeliz cotidiano

Tema: O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções (Clarice Lispector)

Temista: Evelyn

Se eu dissesse que nunca pensei que um dia estaria nesta situação, não falaria a verdade, até porque há algum tempo pela minha cabeça isso permanece. Hoje acordei, mais cedo do que deveria para recuperar as energias gastas no dia anterior, durante a manhã, trabalhei contando os segundos para chegar a hora do almoço e à tarde, trabalhei contando os segundos para chegar a hora de ir embora. Logo que cheguei em casa fui fazer a janta, não pude sentar-me no sofá  ou ao menos tomar um banho, se Antônio chegasse antes da janta estar pronta, terminaria o dia numa discussão interminável e patética como outras foram. Terminei o jantar, fui tomar meu banho enquanto Antônio chegava e se servia na cozinha. Assim que saí do banho, não houve conversa, não houve carícias nem afeto algum. Ele foi assistir à TV, eu jantei sozinha, lavei a louça e fui lavar roupa enquanto ele para cama se dirigiu. Estendi as roupas no varal, já passava das onze, fechei as portas e janelas e me deitei. Ontem, fiz o mesmo e assim foi por muito tempo e seria se nada eu fizesse.

Eu não tenho filhos, não os pude ter. Lamentei por muito tempo essa fatalidade, mas agora vejo como melhor foi dessa forma. A não ser Antônio, não há nada nessa vida que me prenda. Eu sempre fui uma sonhadora, tinha grandes planos, tantos que acabei por nenhum seguir, logo que começava a me dedicar a um, um novo surgia ocupando seu lugar. No meio de tantos planos e esperanças, Antônio aconteceu e de todos, ele foi o único que me prendeu a ponto de realmente levar a sério. Eu fiquei cega, me deixei levar, nada na vida havia conseguido me deixar levar. Grande erro meu. Por ele, tornei minha vida em uma igual a de todos os outros, uma igual às quais eu tinha asco e horror. É por isso enfatizo que o que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções, eu vivia só exceções, eu fui só exceções. Hoje não me reconheço e assim sendo, não posso assumir autoria da sucessão dessa carta, porque não eu mais sou e não eu mais serei, se assim continuar.

Sim, há algum tempo pela minha cabeça isso permanece. Não pensei que assim seria, sempre tive certeza de tudo que se relacionasse a minha vida e minhas decisões, sabia cada passo do meu futuro até me entregar a essa vida ordinária. Portanto foi estranho pensar tanto numa decisão como esta que agora não tem como ser desfeita. Hoje me entrego e comemoro a volta do que nunca devia ter acabado e torço para que outros como eu não deixem que os planos se concluam, porque quando tudo estiver feito e pronto, o sentido de viver não mais existirá.

1 Comment

Filed under Carta, crônica

One Response to O infeliz cotidiano

  1. Eu jurava que tinha deixado um comentário nesse post! Não é possível que não tenha ficado marcado aqui como adorei participar da brincadeira e como você tem idéias ótimas e escreve super bem Tata!
    Adorei, e obrigada por escrever o meu tema!
    Continue, não desiste que venho te ler! As vezes não comento, mas leio!
    Que saudades infinitas…
    Bjos,
    Ly/Evy

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